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Reflexo sem espelho.

   Mais uma noite de calor extremo, como muitas outras na minha vida, noite essa acompanhada da insônia, já costumeira, a qual nem o remédio respeita. Se estivesse nevando lá fora as insatisfações seriam as mesmas, então por que colocar no clima a culpa que cabe a nós mesmos?
   O vizinho é culpado, no máximo de reconhecimento, ele é um pouco mais culpado que nós, ou tão culpado tanto. Nós? Porquê usar o plural? Mais uma artimanha para que eu possa me libertar do sentimento de culpa dos deslizes de cada dia, a provável desculpa seria a tentativa de fazer fingir que o plural serviria para que o "caro leitor" se sentisse como eu me sinto: culpado e impotente; mas não. Essa transmissão de culpa só seguiria adiante, fazendo com que o leitor também pensasse no vizinho, no padeiro, no cara no assento preferencial do ônibus, cutucando o nariz com o dedo e fazendo isso enquanto poderia ceder o lugar pra alguém, isso tudo seria pensado, matutado, triturado sem a menor chance de que o infeliz conseguisse se salvar do tiro inquisidor de pensamentos lançados sobre ele, quando na verdade, deviamos olha para dentro. "Nós", novamente me traí.
   Eu preciso fazer, produzir, ser eficiente, ajudar o mundo, as pessoas, a mim mesmo, a natureza, os animais, pobres animais. Quem salvará as árvores senão eu? E as crianças do meu país dito rico, mas que incentiva mais futebol e Copa do Mundo do que teses de mestrado e doutorado? Eu preciso tornar a cultura mais acessível para as camadas mais carentes da sociedade, mas sem parecer que é um processo de politicagem, de esmola, tem que ser algo muito bem pensado, que realmente inclua as pessoas socialmente...
   Como fazer tudo isso? Como se comprometer com tantas mudanças, necessárias? As atribulações derivadas dos meus cachorros, dentro da minha casa mal cabem nas minhas mãos, como então, salvarei o mundo de nós, dos outros, dele mesmo e de mim sem eles?

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